Nia chega à delegacia perto das oito da manhã. Cauê e Vitor já estavam por lá, ambos ocupados com casos antigos que ainda não tinham sido resolvidos.
— Aquela menina confessou tudo, não? — perguntava Cauê a Vitor quando Nia passava por eles, a caminho de sua mesa.
— Na verdade, a mãe dela confessou que a obrigou a fazer uma confissão falsa — respondeu Vitor.
O clima estava muito tedioso naquela manhã. Nia imaginava que seria monótono como nos outros dias. Porém, Carol, a chefe da delegacia, entra batendo a porta de vidro da ala onde estavam.
— Nia, preciso que você pegue umas coisas para mim lá embaixo, onde guardamos as armas dos crimes. Vitor, Cauê, encontrem o Neto lá fora e vão até a igreja.
Cauê fica espantado e pergunta:
— A igreja?? Por quê??
Carol abaixa o olhar; a luz cinza refletia em seus olhos escuros.
— A Steff foi assassinada. Encontraram seu corpo esticado em cima da pia batismal. Ao que parece, ela foi afogada, e há marcas nos pulsos. Ah... ela também estava seminua.
Nia põe a mão na boca. Como aquilo era possível? Steff havia conversado com ela no dia anterior! Ela se levanta e tenta passar pela porta, mas Carol a impede.
— Me deixa ir com eles! Eu vou descobrir quem fez isso!
— Calma. Você vai depois. É a única que consegue se achar lá embaixo. Preciso daquele fio de nylon que foi encontrado nos pulsos do Morige.
— Mas… mas o Morige? Achei que o assassino tivesse se matado logo depois de...
— Eu também achei. Mas as marcas nos pulsos da Steff são idênticas às do corpo dele.
Nia fica em choque. Quem quer que tivesse matado o Morige… havia sumido completamente. Nem o FBI foi capaz de encontrá-lo.
A escada que levava ao depósito era velha, de ferro enferrujado, rangendo a cada passo. Lá embaixo, o breu era quase total. Nia segurou firme o corrimão e desceu devagar, tateando. Cadê a porcaria das lâmpadas?
Uma janela empoeirada deixava entrar apenas filetes de luz, iluminando fracamente as prateleiras de ferro. Ela sabia exatamente onde o fio estava: última prateleira, lado esquerdo da parede.
Andava com cuidado, tentando não esbarrar em nada, quando um barulho seco soou atrás dela — algo havia caído.
Ela se virou num sobressalto. Ia sacar a arma... mas tinha deixado na mesa. Merda.
Outro som. Murmúrios. Fracos, abafados.
Ela tateou o bolso, encontrou o celular e ativou a lanterna. Caminhou na direção do barulho, decidida a não fugir. A luz iluminou uma cena inesperada.
— AAAAAAAAAAAAAAAAA!
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!
— BEN! AYA! Quantas vezes eu já falei pra vocês não se pegarem aqui embaixo?!
— Desculpa, desculpa! — Aya respondeu, sem saber onde enfiar o rosto. — É que hoje é sexta, achamos que não teria ninguém...
— E você veio aqui pra quê, afinal? — Ben empurrou Nia, nervoso.
— Você acha que eu vim aqui por nada? Teve um assassinato!
— E daí? Sempre tem assassinato — resmungou Ben, erguendo o tom de voz.
Nia cerrou os olhos, tentando controlar as lágrimas.
— Steff foi morta.
O silêncio caiu como uma pancada. Os dois empalideceram.
— O... o quê?
— Carol acha que foi o mesmo cara que matou o Morige.
Aya desabou em choro. Ben a envolveu num abraço e começou a guiá-la para fora.
— Desculpa por isso...
Nia respirou fundo e voltou à sua busca. Após alguns minutos, encontrou o fio de nylon e, logo em seguida, o celular vibrou.
Yukinho:
Oi, mo. Trabalho tá chato como sempre?
09:37
Ela sorriu levemente, mas não respondeu. Em vez disso, abriu a última conversa com Steff.
Steff:
Consegui terminar o quebra-cabeça!
Ontem 22:01
Nia:
Que legal.
Ontem 22:01
Steff:
Vou enquadrar e comprar outro. Qual você acha mais bonito? Uma paisagem ou um animal?
Ontem 22:02
Nia:
Em quebra-cabeça, prefiro paisagens.
Ontem 22:03
Steff:
Queria poder ir hoje, mas o shopping fica meio longe. Vai ficar muito tarde.
Ontem 22:05
Nia:
[Sticker de cachorro]
Ontem 22:05
Ela releu a última frase várias vezes. “Vai ficar muito tarde.”
Muito tarde? Dez da noite já é tarde, e Steff sempre se deitava as 20h.
Correndo para fora do depósito, Nia sai da delegacia com sua arma carregada na cintura. Sobe em sua moto e acelera em direção à casa de Steff, que ficava a cinco quarteirões dali. Enquanto o vento batia em seus cabelos, um ódio antigo começava a despertar como fogo em sua garganta.
Em apenas cinco minutos, Nia chega. A porta está aberta, e um choro pode ser ouvido lá dentro.
— Eu juro que não sei quem pode ter feito isso!
Uma voz feminina e rouca repetia essa frase sem parar. Nia entra e encontra Filipe interrogando a mãe de Steff.
— Filipe, o que está fazendo?
— Tenho que achar o desgraçado que fez isso! Mais uma das nossas foi morta! Eles vão nos matar um por um, Nia! Um por um!
— E você acha que a mãe dela vai saber de alguma coisa?
— Ela disse que sabia que a filha ia à igreja com o Yuki, mas que não fazia ideia de que seria tão tarde.
— Espera… com quem??? Yuki? Impossível.
— É por isso mesmo que ela tá mentindo! — Filipe bate na mesinha de centro. O vaso em cima balança e cai de lado, sem quebrar.
Nia ia perguntar se Steff havia saído, mas já tinha a resposta. Ia se encontrar com alguém… que provavelmente fingiu ser o Yuki.
O toque do celular de Filipe chama a atenção de Nia.
— Alô? Não, não consegui nada de útil. Ir buscar os pertences da Steff? Eu estou meio ocup...
Nia cutuca Filipe e sussurra:
— Fala que eu posso ir buscar os pertences.
— Ah... ahn? Espera aí, Carol, a Nia pode ir buscar os pertences. Certo. Tchau.
Ele desliga.
— Pode ir. Vou levar a mãe da Steff para a delegacia dar o depoimento.
Nia sai correndo e monta novamente na moto. Ela sabia exatamente como poderia encontrar o assassino. Acelerando mais do que o permitido, chega à igreja em três minutos. Os policiais e a ambulância já cercavam o local.
Nia avista Vitor carregando uma caixa.
— E aí, Nia. Não vai querer entrar lá. Até o cara da perícia vomitou.
— Nem quero. Esses são os pertences?
Ela chega mexendo nas roupas de Steff.
— Ei, calma aí! Acho que você não pode fazer isso.
— Se for pra encontrar o assassino, então eu posso.
Ela finalmente acha o celular de Steff. Estava sem senha. Vai até as últimas mensagens e...
— Eu sabia — diz Nia, o ódio corroendo seu corpo. Ela termina de ler a conversa. A última mensagem era:
Desconhecido:
Agora que já me resolvi com você, vou ir ajudar meu irmão.
Hoje 09:15
Espera aí. Essa mensagem é…?
Nia larga o celular no chão e corre desesperadamente para sua moto.
— Ô! Que isso, Cole?! — Vitor arregala os olhos sem entender. Ele pega o celular e lê. — Ah, mano… não pode ser.
Correndo mais rápido que o voo dos pássaros, Nia tinha certeza de que ia levar uma baita multa. Chega no apartamento e sobe as escadas quase tropeçando. Arromba a porta e aponta a arma para a cena horrenda à sua frente.
— Sua desgraçada! Larga ele!
Severina estava de costas. Com uma mão, segurava os pulsos de Yuki acima da cabeça. Com a outra, passava uma faca entre suas pernas.
— Hmm? Quem ousa atrapalhar meu momento íntimo com meu irmãozinho?
Yuki estava com os olhos arregalados, ofegante, desesperado. Uma faixa na boca o sufocava. Ele olhava para Nia, chorando e tentando respirar.
O ódio avassalador fazia Nia tremer.
Severina se vira devagar, assustada ao ver a arma.
— Se afasta. Ou eu juro que a Peste Negra vai parecer piada perto do que eu vou fazer com você.
Severina solta a faca e larga Yuki, que se encolhe no chão. Ela ergue as mãos e vai andando para os fundos. Nia tenta alcançá-la, mas Severina corre, desviando dos golpes. Consegue sair pela porta da frente, mas escorrega no tapete e rola escada abaixo. Toda ralada e tossindo sangue, vê-se sem forças para levantar.
Nia desce degrau por degrau, com a arma apoiada no ombro. Seus óculos escuros estavam sujos por causa das viagens de moto. Ela os levanta sobre a cabeça parando em frente a assassina.
— Eu disse pra ele se afastar de você. Mas aquele teimoso não me escuta.
Severina murmura, chorando.
— Eu devia te dar um tiro bem no meio da testa, sua psicopata! Como você pôde matar a Steff? Sua própria filha!
Mau erguendo a cabeça, ela responde com a voz fraca:
— Ela não queria seguir os passos de Cristo. Tente entender, Cole… tudo o que eu faço… é em nome do Senhor.
Nia coloca a bota sobre a cabeça de Severina, pressionando contra o chão.
— Quero ver seu senhor te salvar agora.
Ela aponta a arma para sua testa.
Até que uma pancada forte atinge a cabeça da detetive. Nia cai, desmaiada.
— Pode me chamar de Jesus, filha da puta.
Severina ergue os olhos e estende a mão, sorrindo.
— Eu sabia que ia me encontrar, docinho!
— Claro que eu ia, amorzinho — responde Neto, sorrindo. Ele segura a mão de Severina e a ajuda a se levantar.
— E agora, o que faremos com ela?
CASO 17 – PRINCIPAIS SUSPEITOS
Suspeito 01: Isaac Bastanello - irmão do desaparecido
“Foi meu pai! Foi meu pai! Eu tenho certeza que foi ele que armou tudo isso. Sempre foi um cara violento usuário de drogas, ele treinava o cachorro toda madrugada pra apostar em rinha de cão. Eu sei que foi aquele psicopata!”
Suspeito 02: Rogério da Silva Bastanello – pai do desaparecido
“Aquele garoto era tudo pra mim, eu e a mãe dele o amávamos. O cachorro era seu único amigo. Compramos ele juntos. Na escola, o muleque sofria bullying e não tinha amigos por ser hiperativo demais, era irritante até. Todo dia ele ia dar comida pro cachorro por mim, já que por alguma razão o Thor não me deixava chegar perto... Juro que nunca entendi, eu o tratava tão bem!”
Suspeito 03: Eliza Brandeira – vizinha
“Eu conheço o Edu dês de que ele nasceu, a família sempre foi meio... como posso dizer? Perturbada? Sempre ouvíamos gritos do irmão mais velho e do pai discutindo sem parar. O coitadinho vivia com hematomas por causa daquele cachorro, ele o derrubava tentando brincar, eu acho. Espero que seja isso. Porém Edu amava o Thor, sempre falava dele quando eu perguntava como ele estava. Quando o Thor fugiu, Edu ficou desolado. Ele chorava muito e pedia pra eu trazer o cachorro de volta. Comecei a andar com ele pela vizinhança perguntando sobre um pastor alemão muito grande, nunca ninguém tinha visto, até que João se juntou a causa e passamos a procurar em um grande número. João é dono da academia do bairro e amigo do pai do Edu, sempre via os dois conversando na calçada por horas. Os clientes da academia eram os que estavam nos ajudando, até sobrar só eu, Edu, Isaac, João e Rogério. No último dia que vi Edu, eu avisei que não poderia ajudar na busca pois tinha a festa de aniversário da minha melhor amiga.”
Suspeito 04: João Ribeiro – amigo do pai do desaparecido
“O Thor era o cachorro mais forte que já conheci, Rogério me disse que o bicho era tão violento que atacava até o próprio dono. Quando descobri que tinha fugido, só conseguia pensar que ia atacar alguém por aí. Achei melhor ajudar e chamar os rapazes pra evitar o pior. Mas foi em vão, por que o cachorro não foi encontrado e o muleque desapareceu!”
CASO 17 – Observações extras
Isaac estava nervoso, muito agitado, olhava para os lados o tempo todo e chegou a perguntar se podia ser preso.
Rogério estava cheio de aranhões, parecia cansado. Quando foi indagado sobre, disse que estava exausto pois havia acabado de sair da academia 24 horas e que havia se arranhado lá.
Eliza chorava.
João tinha muito pelo de cachorro nas roupas, suas mãos tinham marcas de correntes e uma mancha vermelha não identificada marcava seu calção.
CASO 17 – CONCLUSÃO
Depois de ouvir os depoimentos, a polícia fez uma busca na academia de João e lá encontrou uma passagem para um porão. Dentro do porão, vários cachorros grandes e machucados presos por correntes latiam violentamente para os policiais.
Thor foi encontrado vivo, com o focinho e patas cheias de sangue.
Após a descoberta, Isaac confessou tudo.
“Estávamos só nos 4 agora, sem a vizinha pra segurar o Edu, ele estava mais agitado que nunca. Depois de não encontrarmos o Thor, passamos deixar João na academia, pois já estava escuro. La, Edu reconheceu o latido do Thor. Ele entrou correndo e começou a gritar pelo cachorro, o pai ficou nervoso e tentou arrastar ele para fora dali, mas Edu se soltou e entrou dentro do porão... Quando chegamos, já era tarde demais.”
A perícia afirmou que a morte do garoto foi por mordida profunda seguida de batida na cabeça. Uma parte do rosto e braços estavam comidos.
Thor foi sacrificado.
Rogério e João foram presos pela Lei federal de crimes ambientais (Lei 9605/1998) que estabelece como crime qualquer ato de maus tratos. A pena para quem for condenado vai de dois a cinco anos de prisão, além do pagamento de multa e inclusão do nome no registro de antecedente criminal.
Se conseguissem provar que a sombra da câmera de segurança junto com Thor era de Rogério, ele poderia ser condenado por homicídio culposo.
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