Celestia observa a noite. Antes, quando a imagem da Lua do Pesadelo estava estampada na lua, o brilho era tão fraco que mesmo os pôneis que apreciam as madrugadas ou os animais noturnos que naturalmente a preferem, evitavam sair de suas tocas. Trocavam a noite pelo dia. Todos eles. Corujas então, como Celestia havia sentido falta de seus sons soando noite a dentro. Tudo mudou pra melhor, não é? Luna foi resgatada pelos elementos da harmonia!
E finalmente a noite pode brilhar de novo.
Antes de ir se deitar, suspirando, Celestia se vira e segue o corredor rumo ao quarto da porta azul com estrelas. Engole em seco ao abrir devagar a porta do quarto da irmã mais nova.
- Luna?
A Princesa pergunta, só o silêncio responde. A grande alicórnio se abaixa para que seu chifre não arranhe, entrando no cômodo emitindo uma luz fraca com sua magia. Luna ainda está no mesmo lugar, na mesma posição.
- Irmã, ainda está doendo?
Ela ergue as orelhas esperando uma resposta.
Nada.
- Escute Luna, sei que disse que dói para falar, mas assim não vou conseguir te ajudar...
Um pequeno movimento no cobertor. A Princesa encolhida consegue fazer uma forcinha e coloca o focinho para fora.
- Dor... muita... cof-
Uma sequência de tosses secas sai pela garganta de Luna. Celestia a encara, um desgosto amargo surge em sua boca.
"Será que isso é culpa minha? A bani para a Lua sem comida, sem água, vai saber o que pode ter a deixado doente naquele clima congelante. Nem sei o que tem naquela superfície! Onde eu estava com a cabeça?"
- Vai ficar tudo bem irmã. Eu irei te curar, prometo. Aguente só mais um pouquinho.
Celestia usa sua magia para erguer a garrafa de água de cima do criado mudo, ajudando Luna a beber alguns goles. A alicórnio azul estremece, a água parece ajudar a aliviar um pouco a ardência. Luna volta a dormir logo em seguida.
Celestia fecha a porta devagar, girando a maçaneta com cautela. Ela anda a passos largos em direção a sua suíte, segurando as lágrimas. Não, Luna não ia perecer. Ela não pode! Acharia uma cura para o que quer que seja aquilo, a qualquer custo.
No dia seguinte, Celestia faz panquecas com carinhas felizes de mirtilo. Ela come escutando o som dos pássaros. Como queria que sua irmã a acompanhasse... Mas em seu estado, nem andar até ali conseguiria.
De repente seu chifre brilha, e uma carta surge em sua frente. É Twilight.
"Cara Princesa Celestia,
temos um problema. Muitos pôneis estão tendo pesadelos horríveis dês de que Princesa Luna voltou a Equestria. Relatos de insônia também estão aumentando a cada dia. Pinkie Pie está... muito mal. Sua crina murcha com qualquer coisinha. Ela fala sobre um pesadelo onde costura vestidos com pele de pônei. O brilho em seus olhos está apagando.
Rainbow Dash não tem mais energia para seus exercícios físicos, voar ficou difícil pois seus musculos doem. Ela tem um pesadelo onde persegue alguém dentro de uma fábrica colorida. Diz que se move dormindo, seu corpo em alerta a noite toda... Nem consigo imaginar sua dor.
Toda a família da Applejack está sonâmbula, eles andam pelo pomar, parecem assombrações. Applebloom felizmente consegue dormir após algumas horas, mas os outros... eles apagam, mas continuam acordados em suas mentes. Pelos relatos, é claro. Applejack está soando mais dramática que a Rarity. E por falar nela... digamos que as noites sem dormir estão a deixando... instável. Sweetie Belle diz que não pode a deixar sozinha, pois ela pega uma de suas tesouras de tecido e tenta se machucar.
Fluttershy diz estar bem. Parece que essa maldição do sono não a atinge tanto. Eu pedi que Spike ficasse lá com ela em alerta e me avisar se algo fora do comum acontecer.
Quanto a mim... Estou sem sono, Princesa. Passo horas e horas e mais horas sem dormir, mas nenhuma gota de sono surge.
Você sabe o que está acontecendo, majestade?
A Princesa Luna está bem?"
Um soco no estômago, é a expressão para descrever o que Celestia sentiu ao terminar de ler aquela última frase. A doença de Luna está afetando o sono dos pôneis, todos estão doentes e a culpa é sua! Por que não escolheu uma punição mais leve? Que bela princesa você é!
A dor e raiva de si mesma tomam o corpo da alicórnio, que sai voando em disparada até os elementos da harmonia. Ela destranca a porta do cofre e congela, percebendo que não estão ali.
- NÃO! Onde...
É claro, estão com Twilight. Como o nervosismo a atrapalha. Celestia respira fundo e segue até a casa da árvore biblioteca. Ela pousa e entra pela varanda. Tudo está escuro e silencioso lá dentro.
Dando de ombros, a Princesa usa sua magia para detectar os Elementos, os achando facilmente. Ela os pega e se prepara para voltar ao castelo. Eles purificam a terra, derrotam monstros, com certeza curar uma doença desconhecida será fácil!
Com um bater rápido de asas Celestia chega até o pátio do castelo, correndo quase derrubando os pôneis pelo caminho.
- Luna!
Celestia para. Seus olhos arregalam, suas pupilas diminuem. O pânico começa a surgir em seu coração.
Um de seus soldados acaba de sair do quarto da irmã mais nova, se deparando com a Princesa no corredor. A expressão em seu rosto é de puro choque.
- O que está fazendo?! O que você viu?!
Celestia bufa, se aproximando com raiva do pônei enxerido.
- Ia perguntar a Princesa Luna se esta tudo bem... Mas... ela não está.
A alicórnio empurra com força o pônei contra a parede, que bate a cabeça desmaiando no piso. Celestia entra correndo e se joga sob a irmã, pegando os elementos da harmonia e colocando em seu corpo.
- Vamos, funciona! Funciona!
Os elementos permanecem apagados. Celestia chora, suas lágrimas molham o colchão. Um cheiro de sangue surge no ar.
- ... Luna...?
Celestia usa sua magia para virar o rosto da irmã para si, e a visão que se seguiu a fez gritar.
Luna está morta. Sua boca manchada de sangue. Seus olhos virados para dentro do crânio. Uma expressão de dor. Anormal. Podre. Morte.
O que iriam pensar dela agora? Uma assassina.
Não. Jamais.
Vocês iam governar juntas de novo, não pode deixar acabar assim Celestia! Talvez os elementos possam...
"Ugh"
O pônei guarda está acordando. E agora? Pense Celestia pense.
Ele descobriu, ele vai contar.
Não. Ele não pode. Ninguém pode saber disso. Ninguém pode saber que a Princesa Celestia condenou a sua própria irmã a morte.
Os saltos da Princesa fazem barulho de metal ao ressoar no piso fino. Sua face está neutra, seus olhos vermelhos, a respiração baixa.
- Ma-majestade...
O pônei claramente tonto ergue o casco na esperança de conseguir ajuda.
Mas o que recebe... é a escuridão.
- Desculpe.
Celestia fala antes de explodir a cabeça do pônei com uma magia violenta. Sangue jorra pelas paredes, uma boa parte respinga no pelo branco da Princesa.
O resto do corpo seria posto em sacos de lixo e descartado para a criatura mais próxima devorar até os ossos.
O poderoso chifre brilha mais uma vez.
"Cara Princesa Celestia,
acabou. A maldição acabou. Todos os pôneis estão tão exaustos! Eles almoçaram e foram dormir. Fico feliz por eles.
Mas eu ainda não sinto sono. Não estou sentindo cansaço, é como se minha energia fosse infinita.
Irei te visitar para um melhor relatório em breve.
Atenciosamente, sua pupila Twilight Sparkle."
Celestia queima o pergaminho. Acabou. Sua irmã estava amaldiçoando a todos. Mas a culpa ainda te corroe por dentro. Queima como uma tocha.
Um som de uma xícara se espatifando no chão é escutado logo atrás de Celestia. Uma das pôneis serviçais do castelo apareceu em uma péssima hora.
A pobre pônei solta um berro que percorre todo o castelo.
Celestia treme de raiva.
NINGUÉM.
PODE.
SABER.
A Princesa voa lançando um laço cortante de magia, que decapita a serviçal antes que pudesse reagir. Mais gritos, mais sangue. Ela continua trotando pelo castelo, acabando com qualquer um que surgisse em seu caminho. Os guardas a veem coberta de sangue e tentam correr, mas com apenas uma magia a poderosa alicórnio ferve a pele deles, se fazendo fundir ao metal da armadura pesada. Os pegasus que trabalhavam no castelo tiveram suas asas arrancadas para morrerem sufocados pela magia de sua amada Princesa. Os unicórnios tiveram o mesmo destino cruel, sentindo seu sangue explodir de dentro para fora.
Todos que estavam no castelo morreram naquele dia. O pelo branco já não existe mais, só resta o vermelho.
Quando Celestia se deu por satisfeita, ela volta ao quarto de sua irmã, acendendo a luz.
- Sinto muito. É culpa minha.
Ela tira um de seus sapatos para acariciar o rosto da irmã. O sangue da boca já está seco.
Celestia chora, soluçando. Após uns minutos, ela levanta e enxuga o rosto. Saindo do quarto para limpar a bagunça que fez.
- Darei um jeito, minha cara irmã. Onde quer que esteja, que a Lua possa te guiar perante a escuridão, assim como guia os pôneis e animais que vivem na noite.
Dois dias depois
Twilight chega trotando até a porta do castelo. Ela está com Spike e Rainbow Dash, que faz suas clássicas piruetas giratórias no ar.
- Mau posso esperar pra agradecer a Princesa por ter dado um jeito na maldição do sono! Ficar sem voar foi a pior experiência da minha vida gata.
Spike da uma revirada de olhos antes de responder.
- Bem, conhecendo a natureza dela, não sei se foi mesmo a Celestia que deu conta da maldição.
- Spike! Não fale assim da Princesa. Praticamente no mesmo momento em que mandei aquela carta a maldição parou, só pode ter sido ela.
Twilight responde enquanto sobem a escadaria até a porta do castelo.
- Que engraçado, não era pra ter dois guardas aqui?
Dash pergunta.
- Era mesmo... será que aconteceu algo?
Twilight usa sua magia para abrir a porta. Spike chama por alguém, mas apenas o eco responde.
- Que esquisito. Parece até que está abandonado.
O dragão fala, olhando assustado para a escuridão. Os três se entreolham e decidem seguir porta a dentro. Um cheiro forte de metal invade seus focinhos, ficando mais forte conforme se aproximam da sala do trono. Ao chegar, alguma coisa esta parada ali, olhando fixamente para a parede.
- Princesa... Celestia?
Twilight pergunta para a figura virada de costas. A crina agora não brilha, sangue seco está grudado por todo seu corpo, e o cheiro forte de cadáveres apodrecidos emana pelo cômodo.
- Ninguém...
A Princesa se levanta, virando rápidamente na direção dos pôneis. O rosto ensanguentado de uma face perversa, olhando no fundo de suas almas.
Rainbow nota que a algo errado, e se joga na frente dos dois amigos.
- CORRE TWILIGHT!
E Celestia finca os cascos no chão a frente deles antes de atacar, dizendo:
- Ninguém pode saber.
Que a culpa
é minha.
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