Certa vez quando fui posar na casa de uma falecida amiga, sua mãe chegou e me entregou um panfleto de emprego.
- Sei que está passando por dificuldades dês de que Ana morreu. Você devia fechar a loja e procurar algo que realmente de algum retorno.
Fiquei deitada na cama de solteiro que pertencia a Ana enquanto lia e relia a oferta. R$3.000,00 meio período. Madrugada.
Acredito que ela me entregou justo esse por causa do meu problema de sono. Eu durmo de dia e passo a noite acordada dês da adolescência. Amacei o papel e joguei pela janela, me cobrindo com as cobertas de Ana, tentando sentir sua presença pelo olfato. Os olhos não lacrimejam mais, faz tempo.
O papel do panfleto se desdobrou com a força do vento, deslizando sutilmente por baixo da porta daquela casa. Na sala, a mãe de Ana e sua irmã não perceberam, até pisando em cima.
Após uma noite de estudo sobre períodos de venda e marketing, apaguei por cerca de 5 horas até acordar com latidos do cachorro da família. Senti uma pontada de fome, resolvi andar até a cozinha beliscar os biscoitos velhos do pote de vidro empoeirado. Tinha gosto de velho, mas ela gostava.
Escorreguei no tapete da sala, caindo de bunda no chão de madeira.
- AI! Droga!
Falo meio alto, sempre desatenta. Meu olhar segue pelo chão procurando pelo tapete, até focar no panfleto da vaga de emprego. Amassado. Pisado. Mas era o mesmo.
Solto um suspiro e me levanto, arrumando o tapete no lugar e pegando o panfleto com a ponta dos dedos.
"Sorveteria Jersey's?"
Essa era a sorveteria preferida da Ana. Um quentinho surge em meu peito, choraria se ainda tivesse alguma lágrima sobrando. Aperto o panfleto, quase rasgando, e mando uma mensagem pelo número do celular escrito no papel liso.