sábado, 14 de junho de 2025

Nia e a Morte

 Olho para a janela. Tudo que vejo me assusta. 

  • - Não, não pode ser verdade! 

A Morte ao meu lado se pergunta qual é o problema. 

  • - Tem que haver outra maneira, esse não pode ser o único caminho. 

As imagens que a janela mostra são mensagens de chantagem emocional. Eu o forço a fazer o que eu quero por meio de ameaças e choro. É horrível, se eu sonhasse com aquilo, seria o pior dos pesadelos. 

A Morte não entende minha reação.  Ela boceja e fala calmamente como sempre. 

  • - De todos os futuros possíveis esse é o único em que você se casa com ele. É o único caminho. 

  • - Não! Eu não vou falar essas coisas, tem que haver outro jeito. 

  • - Ele nasceu para ficar sozinho. Livre. Seu destino natural não é casar e ter uma família. Ele ama essa liberdade.  

  • ... 

  • - Apesar de te amar bem mais. 

Lágrimas rolam por minhas bochechas. Meu rosto em chamas. 

  • - Você ainda não percebeu criança? 

Ela colocou a mão delicadamente em meu queixo, virando meu olhar para si. 

  • - Pode escolher entre ter um casamento feliz com o amor para sua vida, ou viver infeliz ao lado do amor da sua vida. 

Começo a chorar mais. A dor rasga meu peito. 

  • - Por que, por que não posso o fazer feliz? 

A morte não tem sentimentos, mas naquele momento, podia jurar que a vi sorrir. Um sorriso empático. 

  • - Algumas pessoas só podem ser completas sozinhas. 

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Crimes vol.1

Nia chega à delegacia perto das oito da manhã. Cauê e Vitor já estavam por lá, ambos ocupados com casos antigos que ainda não tinham sido resolvidos.

— Aquela menina confessou tudo, não? — perguntava Cauê a Vitor quando Nia passava por eles, a caminho de sua mesa.

— Na verdade, a mãe dela confessou que a obrigou a fazer uma confissão falsa — respondeu Vitor.

O clima estava muito tedioso naquela manhã. Nia imaginava que seria monótono como nos outros dias. Porém, Carol, a chefe da delegacia, entra batendo a porta de vidro da ala onde estavam.

— Nia, preciso que você pegue umas coisas para mim lá embaixo, onde guardamos as armas dos crimes. Vitor, Cauê, encontrem o Neto lá fora e vão até a igreja.

Cauê fica espantado e pergunta:

— A igreja?? Por quê??

Carol abaixa o olhar; a luz cinza refletia em seus olhos escuros.

— A Steff foi assassinada. Encontraram seu corpo esticado em cima da pia batismal. Ao que parece, ela foi afogada, e há marcas nos pulsos. Ah... ela também estava seminua.

Nia põe a mão na boca. Como aquilo era possível? Steff havia conversado com ela no dia anterior! Ela se levanta e tenta passar pela porta, mas Carol a impede.

— Me deixa ir com eles! Eu vou descobrir quem fez isso!

— Calma. Você vai depois. É a única que consegue se achar lá embaixo. Preciso daquele fio de nylon que foi encontrado nos pulsos do Morige.

— Mas… mas o Morige? Achei que o assassino tivesse se matado logo depois de...

— Eu também achei. Mas as marcas nos pulsos da Steff são idênticas às do corpo dele.

Nia fica em choque. Quem quer que tivesse matado o Morige… havia sumido completamente. Nem o FBI foi capaz de encontrá-lo.

A escada que levava ao depósito era velha, de ferro enferrujado, rangendo a cada passo. Lá embaixo, o breu era quase total. Nia segurou firme o corrimão e desceu devagar, tateando. Cadê a porcaria das lâmpadas?

Uma janela empoeirada deixava entrar apenas filetes de luz, iluminando fracamente as prateleiras de ferro. Ela sabia exatamente onde o fio estava: última prateleira, lado esquerdo da parede.

Andava com cuidado, tentando não esbarrar em nada, quando um barulho seco soou atrás dela — algo havia caído.

Ela se virou num sobressalto. Ia sacar a arma... mas tinha deixado na mesa. Merda.

Outro som. Murmúrios. Fracos, abafados.

Ela tateou o bolso, encontrou o celular e ativou a lanterna. Caminhou na direção do barulho, decidida a não fugir. A luz iluminou uma cena inesperada.

— AAAAAAAAAAAAAAAAA!

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!

— BEN! AYA! Quantas vezes eu já falei pra vocês não se pegarem aqui embaixo?!

— Desculpa, desculpa! — Aya respondeu, sem saber onde enfiar o rosto. — É que hoje é sexta, achamos que não teria ninguém...

— E você veio aqui pra quê, afinal? — Ben empurrou Nia, nervoso.

— Você acha que eu vim aqui por nada? Teve um assassinato!

— E daí? Sempre tem assassinato — resmungou Ben, erguendo o tom de voz.

Nia cerrou os olhos, tentando controlar as lágrimas.

— Steff foi morta.

O silêncio caiu como uma pancada. Os dois empalideceram.

— O... o quê?

— Carol acha que foi o mesmo cara que matou o Morige.

Aya desabou em choro. Ben a envolveu num abraço e começou a guiá-la para fora.

— Desculpa por isso...

Nia respirou fundo e voltou à sua busca. Após alguns minutos, encontrou o fio de nylon e, logo em seguida, o celular vibrou.

Yukinho:
Oi, mo. Trabalho tá chato como sempre?
09:37

Ela sorriu levemente, mas não respondeu. Em vez disso, abriu a última conversa com Steff.

Steff:
Consegui terminar o quebra-cabeça!
Ontem 22:01

Nia:
Que legal.
Ontem 22:01

Steff:
Vou enquadrar e comprar outro. Qual você acha mais bonito? Uma paisagem ou um animal?
Ontem 22:02

Nia:
Em quebra-cabeça, prefiro paisagens.
Ontem 22:03

Steff:
Queria poder ir hoje, mas o shopping fica meio longe. Vai ficar muito tarde.
Ontem 22:05

Nia:
[Sticker de cachorro]
Ontem 22:05

Ela releu a última frase várias vezes. “Vai ficar muito tarde.”

Muito tarde? Dez da noite já é tarde, e Steff sempre se deitava as 20h.

Correndo para fora do depósito, Nia sai da delegacia com sua arma carregada na cintura. Sobe em sua moto e acelera em direção à casa de Steff, que ficava a cinco quarteirões dali. Enquanto o vento batia em seus cabelos, um ódio antigo começava a despertar como fogo em sua garganta.

Em apenas cinco minutos, Nia chega. A porta está aberta, e um choro pode ser ouvido lá dentro.

— Eu juro que não sei quem pode ter feito isso!

Uma voz feminina e rouca repetia essa frase sem parar. Nia entra e encontra Filipe interrogando a mãe de Steff.

— Filipe, o que está fazendo?

— Tenho que achar o desgraçado que fez isso! Mais uma das nossas foi morta! Eles vão nos matar um por um, Nia! Um por um!

— E você acha que a mãe dela vai saber de alguma coisa?

— Ela disse que sabia que a filha ia à igreja com o Yuki, mas que não fazia ideia de que seria tão tarde.

— Espera… com quem??? Yuki? Impossível.

— É por isso mesmo que ela tá mentindo! — Filipe bate na mesinha de centro. O vaso em cima balança e cai de lado, sem quebrar.

Nia ia perguntar se Steff havia saído, mas já tinha a resposta. Ia se encontrar com alguém… que provavelmente fingiu ser o Yuki.

O toque do celular de Filipe chama a atenção de Nia.

— Alô? Não, não consegui nada de útil. Ir buscar os pertences da Steff? Eu estou meio ocup...

Nia cutuca Filipe e sussurra:

— Fala que eu posso ir buscar os pertences.

— Ah... ahn? Espera aí, Carol, a Nia pode ir buscar os pertences. Certo. Tchau.

Ele desliga.

— Pode ir. Vou levar a mãe da Steff para a delegacia dar o depoimento.

Nia sai correndo e monta novamente na moto. Ela sabia exatamente como poderia encontrar o assassino. Acelerando mais do que o permitido, chega à igreja em três minutos. Os policiais e a ambulância já cercavam o local.

Nia avista Vitor carregando uma caixa.

— E aí, Nia. Não vai querer entrar lá. Até o cara da perícia vomitou.

— Nem quero. Esses são os pertences?

Ela chega mexendo nas roupas de Steff.

— Ei, calma aí! Acho que você não pode fazer isso.

— Se for pra encontrar o assassino, então eu posso.

Ela finalmente acha o celular de Steff. Estava sem senha. Vai até as últimas mensagens e...

— Eu sabia — diz Nia, o ódio corroendo seu corpo. Ela termina de ler a conversa. A última mensagem era:

Desconhecido:
Agora que já me resolvi com você, vou ir ajudar meu irmão.
Hoje 09:15

Espera aí. Essa mensagem é…?

Nia larga o celular no chão e corre desesperadamente para sua moto.

— Ô! Que isso, Cole?! — Vitor arregala os olhos sem entender. Ele pega o celular e lê. — Ah, mano… não pode ser.

Correndo mais rápido que o voo dos pássaros, Nia tinha certeza de que ia levar uma baita multa. Chega no apartamento e sobe as escadas quase tropeçando. Arromba a porta e aponta a arma para a cena horrenda à sua frente.

— Sua desgraçada! Larga ele!

Severina estava de costas. Com uma mão, segurava os pulsos de Yuki acima da cabeça. Com a outra, passava uma faca entre suas pernas.

— Hmm? Quem ousa atrapalhar meu momento íntimo com meu irmãozinho?

Yuki estava com os olhos arregalados, ofegante, desesperado. Uma faixa na boca o sufocava. Ele olhava para Nia, chorando e tentando respirar.

O ódio avassalador fazia Nia tremer.

Severina se vira devagar, assustada ao ver a arma.

— Se afasta. Ou eu juro que a Peste Negra vai parecer piada perto do que eu vou fazer com você.

Severina solta a faca e larga Yuki, que se encolhe no chão. Ela ergue as mãos e vai andando para os fundos. Nia tenta alcançá-la, mas Severina corre, desviando dos golpes. Consegue sair pela porta da frente, mas escorrega no tapete e rola escada abaixo. Toda ralada e tossindo sangue, vê-se sem forças para levantar.

Nia desce degrau por degrau, com a arma apoiada no ombro. Seus óculos escuros estavam sujos por causa das viagens de moto. Ela os levanta sobre a cabeça parando em frente a assassina.

— Eu disse pra ele se afastar de você. Mas aquele teimoso não me escuta.

Severina murmura, chorando.

— Eu devia te dar um tiro bem no meio da testa, sua psicopata! Como você pôde matar a Steff? Sua própria filha!

Mau erguendo a cabeça, ela responde com a voz fraca:

— Ela não queria seguir os passos de Cristo. Tente entender, Cole… tudo o que eu faço… é em nome do Senhor.

Nia coloca a bota sobre a cabeça de Severina, pressionando contra o chão.

— Quero ver seu senhor te salvar agora.

Ela aponta a arma para sua testa.

Até que uma pancada forte atinge a cabeça da detetive. Nia cai, desmaiada.

— Pode me chamar de Jesus, filha da puta.

Severina ergue os olhos e estende a mão, sorrindo.

— Eu sabia que ia me encontrar, docinho!

— Claro que eu ia, amorzinho — responde Neto, sorrindo. Ele segura a mão de Severina e a ajuda a se levantar.

— E agora, o que faremos com ela?

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Traição

 Isso não é justo. Eu me sinto devorada viva! Você arrancou todas as minhas tripas e me deixou ali pra morrer, enquanto eu vazo em sangue.  

Vazando, é isso que eu sinto, sinto que o líquido viscoso que corre em minhas veias se tornou um veneno e está me matando aos poucos. Isso dói. Isso é irritante. 

Como pode dizer que fez isso só pra me agradar??? Quem que faz uma coisa dessas só pra agradar alguém??? Admita que você também queria! ADMITA! 

A raiva está me consumindo e não quer parar.  

Socorro meu deus.  

Eu sinto arder, arde em chamas, arde muito, nossa senhora como arde. 

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Mensagem

 Não sabia o que estava acontecendo quando li aquela mensagem. Apenas riscos e mais riscos, sem sentido algum. Enviada as 21:00 de uma fria segunda-feira, saindo do trabalho morrendo de fome e cansaço. Pense mais um pouco. Quem poderia escrever aquilo? Algo tão específico, bonito mas ao mesmo tempo duvidoso. 

- Não acho que seja um problema, apenas apague a mensagem.

Por que? E se alguém precisar de ajuda?

- Mas nem quer dizer nada.

Como você sabe? Foi você que enviou por acaso?

- Não, mas, cara você esta deixando algo tão pequeno subir a cabeça.

Dou uma risada sincera e faço sinal de negação, como se fosse maluco. Como se a voz fosse burra e apenas minha mente estivesse certa sempre. Tudo bem, alguém pode ter mandado a mensagem pro número errado, acontece. Mas sabe, quais as chances? Todo mundo confere a foto de perfil e o número antes de enviar, certo?

- Você sempre faz isso, sempre fica paranoico com coisas simples.

Pisco algumas vezes. Meus olhos ardem por encarar a tela brilhante por tanto tempo. Tento responder, mas meus dedos não se movem. Permaneço congelado até minha mão começar a tremer. Por favor volte pra mim. Leio de novo e de novo. Meus lábios começam a tremelicar, sinto o frio percorrer todo meu corpo. Tento engolir em seco, mas a garganta nem a língua se movem do lugar. Tento desviar o olhar da tela sentindo meu coração acelerar e a ansiedade estourar em minha mente. 

Estou tentando, eu juro que estou tentando.

- Você esta deixando algo tão pequeno subir a cabeça.

- Você sempre faz isso, sempre fica paranoico com coisas simples.

Princesa da Culpa (Princess of Guilt) - My Little Pony Creepypasta

      Celestia observa a noite. Antes, quando a imagem da Lua do Pesadelo estava estampada na lua, o brilho era tão fraco que mesmo os pônei...